Tag Archives: Lovecraft

O Rei do Bosque

(Nota: num prefácio dum conto seu, Borges diz que não pôde deixar de prestar uma pequena homenagem a Lovecraft, mesmo que seu elogio tenha sido backhanded. No brasil temos o Richard, pelo lado da angústia, e o Thiago, pelo lado sacana dos seus bestiários, escrevendo uns belos posts borgeanos. Aqui fiz uma pequena imitação de Maupassant, Lovecraft e um pouco de Sábato. Obviamente, Borges dá uma de Virgílio durante todo o percurso)

“…; but surely no crowned head ever lay uneasier, or was visited by more evil dreams, than his.”- The Golden Bough.

O período final de sua vida foi um longo suspiro. Pálido, esperançoso e irritadiço, o influxo implacável do Bosque suspendeu os pequenos orgulhos imaginativos de Bernardo. Temia-o imenso, no entanto, com freqüência um torpor lhe acometia, quando, separados pela noite,  contemplava veemente as margens do grande lago, quase invisível sob a luz da lua. O bosque, soturno, atraía-o mecanicamente, como uma promessa.

Desde que se mudara para o Instituto – tinha feito ali matrícula por meados de julho-, conhecera uma vida sem grandes preocupações ou aborrecimentos. Certamente, as poucas disciplinas eletivas lhe consumiam tempo, e alguns colegas lhe causavam mais espanto que amizade, mas buscava nestes e naquelas a precária tranqüilidade que lhe opunham à aflição noturna.

Pelo Instituto, uma construção muito antiga que abrigava além  das salas de aula e dos dormitórios uma biblioteca simples, não nutria esse amor arquitetônico tão comum entre seus residentes, mas não guardava também repulsa ou hostilidade. Pressentia que este já era agora uma extensão de seus habitantes. Contra esse prédio se apresentavam o lago e o bosque. O primeiro, tão parado quanto turvo e gélido, o segundo, uma procissão de caules avermelhados encimados por copas muito verdes, projetava silencioso sua daltonia.

Num universo tão pacífico, Bernardo perdeu a razão, lentamente deixou que os laços que o ligavam àquela presteza simples da realidade fossem desfeitos um a um. Mesmo assim, sofregamente escrevia sobre a nobreza silvestre do Ramo de Ouro, firmava em traços velozes e tensos sua Tese sobre a corte solitária de Arícia.

Quase um ano se passara desde sua chegada quando, pela primeira vez, deu-se ares de percorrer o bosque. Houve por bem não contar a ninguém na época, mas é de crer que se lhe afigurava urgente essa visita já no primeiro inverno. Dessa época data a erupção de aparência febril e do caráter polêmico que adquirira em sala de aula e mesmo com seu professor orientador. Não obstante, podia passar uma semana inteira em silêncio absoluto, por vezes voltava a apresentar o trato fácil e as maneiras gentis de outrora.

O caminhar da primavera parece ter-lhe melhorado o espírito, participava de atividades lúdicas e se tornava exímio conversationalist, a maneira com que um grupo de admiradores de Coleridge do corpo de estudantes gostava de batizar seus melhores freqüentadores. A menção inocente do bosque por algum companheiro, no entanto, era suficiente para lhe fazer pesar o cenho, e como que uma sombra se lhe pousava nos ombros e pensamento.

Assim, quando chegou o verão e ocorreu o primeiro incidente agudo, poucos foram os que se lembraram do comportamento erradio de Bernardo à época do inverno. Sumira um dia por toda a manhã e tarde, depois, caída a noite, encontraram-no desfalecido no chão do quarto. Levado à enfermaria voltou a si, pouco falou e mostrava-se aborrecido com todas as atenções.

Nas semanas seguintes fez-se pior o estado de Bernardo. Um seu colega de quarto relatou com que surpresa era interrompido no sono pelos delírios do vizinho. “Tem uma maneira de falar quando dorme que me perturba muito, é como se estivesse acordado, fala, fala…algo sobre o Rei do Bosque, o Sacerdote de Nemi…e com que terror pânico não levanta-se, dirige-se à janela e fixa absorto a região do lago? Fica assim por muito tempo, não tenho coragem de interrompê-lo…outro dia vi-o chorar em soluços, tenho certeza de que está dormindo durante todo o tempo.”

Logo os terrores noturnos lhe começaram a invadir também o dia, começara a agir de forma peculiar nos corredores e classes. A visão do bosque se lhe tornara insuportável, a ponto de evitar a biblioteca e toda a ala leste do edifício com exceção do dormitório. Observou-se nele uma atenção desmedida por tudo que o rodeava, como se ao menor sinal pudesse saltar de um dos lados um animal felino e mortal. Alimentava-se sozinho em horários irregulares. Portou-se assim talvez por um mês inteiro até que certo dia não mais deixou seu quarto.

Bernardo se ia vagarosamente, era o que podia perceber o antigo médico do Instituto, nunca vira nada igual, nunca tivera tamanha incerteza diagnóstica, procurava qualquer lógica nos balbucios do enfermo que em intervalos ora longos ora curtos falava como o Rei do Bosque morreria pelas mãos do Rei do Bosque, Sacerdote por direito de Nemi. Também disse num delírio sem ar como quebrara o Ramo de Ouro e que já não viveria para ver outro dia, que pairava sobre ele a véspera inevitável da batalha.

Entre estudantes e professores reinava essa angústia que é vizinha da morte, e de alguma maneira esperavam que se evitasse o pior, mas não acreditavam em si mesmos. Reuniam-se, dispersavam, confabulavam e calavam mas havia um moribundo que se imiscuía em todo olhar, em toda fala havia essa gravidade tacanha, e era como uma violência que se lhes abatia não se sabe de onde, que era preciso expulsar.

Por fim, morreu Bernardo. Prestou-se-lhe a homenagem comovida e mesmo uma nova amizade surgiu entre todos, com o tempo, o Instituto voltaria a ser o reduto calmo de eruditos e estudantes. Sobre a discussão do caso não se emitiu nenhuma regra proibitiva, a verdade é que não sabiam exatamente do que morrera Bernardo e as autoridades legais não encontraram nenhum indício de violência. Entre os professores a opinião de que o aluno já chegara em estado psicológico precário era dominante e que o tema de sua Tese e a proximidade do bosque possuíam valor somente contingencial em toda a situação.

Um pequeno texto, composto de notas curtas e confusas, foi encontrado em seu criado mudo.

“Desde que cheguei ao Instituto, tornou-se muito intensa minha angústia e maior minha obsessão pelo lago e pela mata além; não fosse pelo meu ceticismo, poderia guardar o desejo de tornar-me eu o Rei do Bosque. Me oprime ainda o pesadelo recorrente que me põe sem comando de meus próprios passos a caminhar inexoravelmente na direção da árvore dos ramos de ouro.

Finalmente fui ao bosque, lembro de tudo vagamente, como se acordasse apenas depois de eras. A caminhada que por muito tempo achei que empreenderia zelosamente, deu-se a passos largos e teve em mim efeito penitente. Ao meu redor fechavam-se arbustos e copas de árvores, os galhos parcamente iluminados formavam espantalhos fugidios, a produzir ruídos absurdos, as raízes se interpunham aos meus pés transmutadas em serpentes abismais; em todo esse trajeto, me guiei em direção à luz dourada dos ramos duma árvore localizada muito profundamente na mata. Quando cheguei à árvore Ele estava lá.

Depois que visitei a mata assalta-me com regularidade pavorosa um novo pesadelo. Um grande clamor se faz ouvir por toda uma região descampada perto do bosque, onde agora fica o Instituto. Liberto, o Rei do Bosque, está fora da mata, caminha nobremente em direção ao Mundo, atrás marcha a legião desguarnecida, e já através das águas do lago vê-se surgir o desespero da morte. O caminho do Mundo era, no entanto, barrado por defesa estranha, os onze caminhos que levavam à corte de Arícia não eram os mesmos onze caminhos que voltavam ao Mundo. Assim, marchava cegamente o Rei e suas legiões, e por séculos percorreu os onze caminhos equivocados, quedavam lívidas as legiões de almas infindas e semblantes anêmicos até que, por entre as fileiras, percorreu o segredo do meu conhecimento esotérico e de que seria eu a libertar de vez o Rei do Bosque, que era na verdade o Rei do Mundo.

Agora, sou tomado de alucinações diurnas, às vezes, estou andando pelos corredores e me vejo de repente no descampado dos sonhos, o Instituto perde-se numa irrealidade momentânea e me perseguem o Rei e suas legiões.

Passam-se os dias, fica menor minha disposição e se enfraquece minha resistência ante os indícios de que o Rei do Bosque anda já pelos corredores e por todas as salas do Instituto, ou pelo descampado, não sei.  Sua influência é maior que a de outros tempos.

Creio que de minha antiga existência resta somente um fio de memória frágil. Mas há o chamado constante do bosque, cujas folhas conseguem vir aportar até dentro do Instituto – e como são douradas essas folhas – em pequenos redemoinhos. A presença do Rei se agiganta nessas diminutas zombarias naturais, nos círculos concêntricos do lago, nas canções vespertinas do vento. As visões se sucedem. A marcha das legiões soa ritmada e procede sempre da mata, passa por todos os lados e volta em direção ao lago. Um pensamento extraordinário feriu-me a alma com violência. Excitado, percebi que somente a mim cabia a morte do Rei do Bosque.

Me assombra uma ideia fixa: se o Rei do Bosque é na verdade o Rei do Mundo, que se haverá de fazer quando seu reino se tornar império para muito além de Arícia? Meu terror cresce ao perceber que, de toda maneira, todos ao redor já perderam as faculdades naturais de defesa, são todos presa do Rei do Mundo, e percorrem reféns o circuito temeroso dos onze caminhos, sem saber.

Um novo pesadelo me consome, de que sou eu o mais perigoso inimigo do Rei do Bosque, sucessor do Rei do Bosque, algoz impiedoso e cruel, tomado de uma vontade amarga, sequioso do sacerdócio de Nemi por amor de Diana, e que havia anos percorria os onze caminhos assinalados, como um corsário que, contando os medidos passos, espera um augusto tesouro. Oh! O tesouro é o próprio reinado, a corte do lago de Arícia, a sombra dos ramos de ouro, a chefatura das legiões desguarnecidas!

Sonhei pela última vez, me encontrava sozinho no descampado agreste, os brados dos legionários revoavam livrementes pelo ar gelado. As falanges prosseguiam com o arrastar de escudos. E encouraçado, quase sólido, o Rei tomou a dianteira surgindo dentre os soldados, clamando pelo intruso advindo. Ao perceber-me em frente, apenas com um punhal, com um ramo de ouro na mão, num repente, olhou-me o rosto rijo. Então paciente, muito lento, quase cívico, retirou ele mesmo sua pequena espada. O Rei lá permanecia, estático, pensativo, num esgar que o fazia ferir.

As legiões bradaram novamente em movimentação brusca porém ordenada. Punham-se em formação circular, ao meu redor e do Rei do Bosque, num raio enorme que podia conter o Mundo. Colocaram-se a marchar lentamente em direção ao centro, e neles havia mais desespero do que sanha. Percebi que não parariam, que o Rei do Bosque me esperava há séculos, e que antes dele havia outro Rei do Bosque secular, que o caminhar paulatino das falanges era um rito funeral e que dele se ergueria o Rei do Bosque redivivo. Caímos em batalha. O duelo foi inexato, eu afobado, ele contido. Tive a impressão de que queria morrer. Desprendi-lhe o golpe fatal, caridosamente. Era eu já o Rei do Bosque, levantado em júbilo pela legião enternecida. Levaram-me até o centro da mata, ante a árvore dos ramos de ouro, em cerimonioso desfile; muito para trás, pisavam furiosamente o cadáver de meu antecessor como parte de algum costume que já não entendiam. Dispersaram-se em onze fileiras volumosas até desaparecer. Fiquei cercado apenas de silêncio doloroso, no meio da mata, envolto numa atmosfera invulgar, nada mais se movia, era eu o monarca triste das guirlandas silvas, comandante solitário de tropas desvalidas, e chorei sentido de uma nostalgia encanecida. Observei, ainda choroso, meu futuro escurecido de séculos, em minha imagem resumida no lago, e era como estivesse presente meu sofrido antecessor, o Rei do Bosque, e esperei sedento o próximo rei de Arícia. Numa febre incontida, quis percorrer um a um os onze caminhos que levam ao Mundo, já não os lembrava; percorria-os então seguidamente, e seguidamente voltava para a sombra dos ramos de ouro.

Logo morrerei, o dia nascerá claro e todos estarão felizes. Ninguém compreenderá que, morto o Rei do Bosque, ainda vive o Rei do Bosque,  porque sua chegada precipitará o cerco das legiões de Nemi e o horror que se apresenta no Lago estará à vista de todos.”


11 Comments

Filed under Literatura

comentário sobre imortais

1
A massa de comentadores da Divina Comédia não exita ao afirmar que, em seu primeiro verso, o poeta anuncia que está com trinta e cinco anos, está,  pois, nel mezzo del cammin di nostra vita. Alighieri é pio, as artes que seu mestre Virgílio fizera sob inspiração das musas ele somente o pode fazer sob a graça do Espírito. Este, em algum versículo das escrituras, contorna uma vida de homem em setenta anos. As eternidades da alma são o tema principal, talvez único, das discussões teológicas. As agonias da cruz, as privações do deserto, as andanças sob o crescente, não impedem o veredito de Borges em sua história curta chamada Os Imortais: cristãos, judeus, e muçulmanos, descrêem da imortalidade visto a veneração que dedicam ao primeiro século de vida. A imortalidade que propõe é mais trivial e temerária. Os imortais, longe do vigor proporcionado pela eterna saúde, tendem à apatia; diz-se de um dos personagens que  nunca é visto de pé e tem pássaros que se aninham em seu peito, a maldade é praticada sem maldade, a bondade sem virtude. As qualidades humanas têm o sentido da urgência, a imortalidade é própria das pedras e, como estas,  não possui identidade, é meio budista, asiática. Homero, nas mãos do argentino, constrói cidades pavorosas e ao final de séculos é um troglodita, é também um legionário romano, e é também ninguém.
2
Quer a sabedoria popular que  Juan Ponce de Leon, almirante espanhol subalterno de Cristovão Colombo, após abandonar a chefatura do mandato de Porto Rico, tenha partido em busca das águas da fonte da juventude. A sabedoria popular fê-lo ainda errar inutilmente ao largo do destino mítico não longe dali, em terras continentais norte-americanas, na Flórida. A sabedoria não convencional de Nathaniel Hawthorne, tecedor de alegorias com a estranha mecânica dos sonhos, e certa ligeireza das escolas dominicais, toma um pequeno volume dessas águas e o põe sobre a mesa do Dr.Heidegger, arquétipo do cientista gótico. O experimento que se segue é revelador, os personagens tomados pela velhice e fatiga não são sábios, são resignados. Quando momentaneamente se lhes oferece a juventude são febris e inconseqüentes. Dr.Heidegger recusa participação no próprio experimento, diz ter tido muito trabalho no exercício do envelhecimento, e prescinde dos esforços da garotice. A imortalidade oferecida pela água é fugaz, os personagens, que rumam ao final do conto em direção à fonte, terão quiçá o mesmo destino do conquistador espanhol. A rosa decrépita, tirada por Heidegger das páginas dum livro assombrado,  divide com ele as rugas dos anos e suas pequenas infelicidades, mas é mais perene que as magnólias gigantes que cercam a fonte e jamais morrem.
post scriptum: Howard Lovecraft, original da mesma Nova Inglaterra de Hawthorne, leva adiante os paroxismos da eternidade. Ciente de que as pequenas alegorias morais de Nathaniel inexistem na vastidão do Cosmos, faz aparecer amiúde em sua ficção as mesmas coplas de poesia alienígena:
“there is not dead wich can eternal lie,
and with strange aeons even death may die”
O inglês de artificialidade arqueológica é conveniente. Os versos, encontrados somente em um punhado de bibliotecas do globo, e traduzidos de um latim sobrevivente da Inquisição, foram primeiramente escritos em língua humana por um árabe louco, Al Hazred, nas imensidões luminosas do deserto do Yêmem. A revelação, obtida em uma cidade que jamais existiu, Irem a Cidade dos Pilares, tem origem preternatural: a inexatidão do espaço, a imprecisão do tempo; ditada por criaturas medonhas que um tal habitat carrega no bojo. As mãos, às vezes sensatas, do árabe louco Al Hazred batizaram o livro que contém as coplas de Al Azif, supostamente a palavra que designa o grito dos insetos, as vespas e gafanhotos, quando aproximam-se na hora do pôr-do-sol. Para os contadores das noites de Sherazade, persas, árabes, sírios, Azif é também o grito dos gênios e demônios, sempre malignos, que a posteridade conheceu tão mansos nos cinematógrafos dos contadores californianos. As coplas, estas, zombam a imortalidade, anunciam elas o entardecer também da morte, e sua fixidez noturna.

1 Comment

Filed under Literatura